Nas trilhas de Richard Francis Burton

Burton (1821-1890) é um explorador, geógrafo, linguista, etnólogo, orientalista, agente secreto, diplomata britânico, tradutor d’As mil e uma noites e do Kamasutra. Em 1865, é nomeado cônsul em Santos e aproveita para viajar através dos planaltos centrais do Brasil e descer de canoa o Rio São Francisco. Em 1869, ele publica The Highlands of Brazil1. Essa obra é considerada por Gilberto Freyre2, assim como os relatos de viagem de Saint-Hilaire3, como um dos testemunhos estrangeiros mais preciosos sobre o Brasil no século XIX.
O São Francisco, segundo rio do Brasil, mede mais de 3 mil quilômetros e sua bacia é maior que a França e a Suíça reunidas. Sua importância é, também, histórica. Desde o século XVI ele é um dos eixos das colonizações portuguesa, holandesa e francesa. Via de penetração do mundo ameríndio, o rio, denominado Rio dos Currais, desempenha uma grande importância econômica, começando pela produção de carne e de couro. No romance nacional brasileiro, ele ocupa um lugar familiar: O Velho Chico; mais grandiloquente: O Nilo brasileiro, o rio da união nacional. Sua importância continua considerável como fonte de irrigação e energia hidroelétrica. A redução de seu nível e as poluições ribeirinhas colocam em questão seu equilíbrio biológico e ecológico.
Desde o século XIX ele interessa a fotógrafos como Marc Ferrez, August Stahl e, no século seguinte, sem ser exaustivo, Marcel Gautherot e Pierre Verger. Mais recentemente, Celso Brandão com o livro Ilha do Ferro atraiu a atenção para esta região em mutação.
Para os fotógrafos, revisitar estas obras e seus itinerários permite avaliar a passagem do tempo sobre o território da bacia do São Francisco.
Esta responsabilidade social, histórica e artística já era o centro da Missão Heliográfica, exatamente como foi definida e produzida por Prosper Mérimée em 1851, em seu combate pela preservação do patrimônio francês ameaçado.
Obra em longo prazo, a Missão Rio São Francisco pretende questionar as mutações do território, da paisagem e a vida da população da bacia do rio, da sua nascente até o oceano. Longe de um inventário ilustrativo, o questionamento vai se orientar em direção aos pontos sensíveis. A luz, o espírito do lugar e o olhar, que além de conceitos são produtores de formas, de senso e do sensível. A produção de obras originais ou inéditas, frutos da diversidade de engajamentos poéticos dos autores, contribuirá para uma interrogação sobre o mundo presente e as formas de que se alimenta. A missão produzirá um conjunto de testemunhos preciosos e memória para o futuro. Esta iniciativa do Territoire Sensible é privada e não é endossada por nenhuma instituição. Ela toma forma cooperativa e reabilita o funcionamento do coletivo. Sua direção artística se situa na intersecção das questões territoriais e formais.
Além de fotógrafos, serão solicitados escritores, poetas, videomakers, pintores, artistas plásticos, mas também historiadores, sociólogos, antropólogos….

Pierre Devin
Setembro 2018

1 The Highlands of Brazil, Tinsley Bros ed., Londres, 1869.
Viagem de canoa de Sabara ao Oceano Atlântico, ed.USP, 1977
Viagem de Rio de Janeiro a Morro Velho, Senado Federal, Secretaria de Publicação, 1976
2 Casa grande e senzala, 1933 Maîtres et esclaves, Editions Gallimard, 1952.
3 Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes, ed. Grimbert et Dorez, Paris, 1830.
Segunda viagem a São Paulo e quadro histórico da província de São Paulo, Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.
Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1937.
Viagem pelo distrito dos diamantes e pelo litoral do Brasil, Companhia Editora Nacional, 1941.
Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, Companhia Editora Nacional, 1938.
4 Ilha do Ferro, Sensible édition, Imprensa Oficial, 2017.