76 páginas, formato 25 × 26cm, 53 fotografias, offset tradicional.


Celso Brandão (Maceió, AL, Brasil, 1951) graduou-se em Comunicação Visual pela Universidade Federal de Pernambuco (1976) e fez especialização em fotografia como instrumento de pesquisa nas Ciências Sociais na Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro. Foi professor de fotografia, por 30 anos, no Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Alagoas. Publicou os livros de fotografia Sic Transit (Sensible édition, 2016), Caixa Preta (Editora Madalena, 2016), Taramps (SESC, 2016). Vem dirigindo uma série de filmes e vídeos documentários desde a década de 1970.


Ilha do Ferro é um lugar ainda desconhecido pelo principal site de cartografia da globosfera. Este nome poderia ser o título de uma aventura de Tintin, de um romance histórico, de um romane de antecipação do século XIX ou ainda de um filme de aventura.

Esta entidade não é uma ilha, mas um povoado à margem esquerda do Rio São Francisco, que delimita dois estados do Sertão, a grande região semi-árida do Nordeste do Brasil: Alagoas e Sergipe. Rio acima, Piranhas é um dos lugares marcantes do cangaço. Esta história, que viria a ser lenda épica, chegou ao fim em 1938. O bando mais famoso foi liquidado e a exposição das cabeças de Lampião, Maria Bonita e de seus companheiros, sobre as escadarias da prefeitura, deveria impor o respeito à ordem estabelecida.

Hoje, a mudança climática aumenta a seca. Pode-se imaginar os resultados para os recursos hídricos, as consequências para a população e para a vegetação. O equilíbrio frágil do Sertão está colapsando. A criação extensiva de bovinos forjou uma lenda popular em torno da figura do centauro, aquela do vaqueiro, do bandido à cavalo, protegido por uma armadura de couro, frente à caatinga. Esta relação com um ambiente hostil gerou uma cultura e uma relação muito singular ao cosmos.

A atividade ancestral da Ilha do Ferro, baseada na sabedoria da carpintaria e da construção de barcos, sofreu uma mutação: o transporte fluvial foi transferido para as estradas e o nível do rio baixou drasticamente.

Os mestres construtores davam o toque final às suas produções com uma figura de proa colorida esculpida em madeira: a carranca. Esta figura monstruosa era destinada a proteger a tripulação e a afastar os maus espíritos. A liberdade em imaginar as formas, combinada à sabedoria da madeira, foi sem dúvida o combustível para uma longa caminhada que conduz o artesanato náutico à arte.

Não vou voltar às raízes profundas que mobilizam a produção de Celso Brandão: seu estado, seu povo, seus mitos, seu imaginário. Nesta busca, há mais de 30 anos, ele chega à Ilha do Ferro para documentar a atividade das bordadeiras de Boa Noite, um tipo de bordado que desapareceu do resto do país. Ele descobre lá também uma pulsante produção artística vernacular ligada ao trabalho com a madeira. Celso desenvolve então uma estratégia de imersão a longo prazo para apreender a inteligência das formas produzidas. Depois de as ter reconhecido e filmado, ele sente a necessidade de vivê-las intimamente. Ele reúne então dezenas de peças de mais de quinze autores. Graças a esta coleção, muitas pessoas, inclusive fora do país, descobriram o talento dos artesãos da Ilha do Ferro. Esta descoberta, combinada à preservação de obras significativas, já daria corpo ao acervo de um museu. Mas isso não é suficiente para este pioneiro.

Uma casa na Ilha do Ferro vai lhe permitir experenciar as raízes da produção artística do povo do Nordeste. O compartilhamento do biótopo se dá em todas as dimensões, incluindo terrestres, míticas, místicas, cósmicas.

Graças à qualidade do lugar e do encontro, e à profunda imersão, Ilha do Ferro representa uma cristalização, um ápice na trajetória de Celso.

Seu ensaio fotográfico não se limita a ampliar o museu imaginário com um hino à inteligência e à sensibilidade da criatividade popular. Ele também tem uma função antropológica de preservar a memória. Ele nos interroga precisamente sobre o segmento de formas naturais, animais, humanas como fontes de imaginários e de inspiração artística. Ele o faz num momento em que a massificação, o folclorismo e a obscenidade turística esmagam tudo.

A obra produzida é notável por seu conteúdo mas também por sua forma. As referências à cinematografia contribuem. A estrada, a visão através da tela do pára-brisa, o rastro gerado pelo movimento, o fade-out são igualmente os elementos que se inscrevem no estilo do autor, mas também em sua relação heraclitiana à vida e ao mundo.

O resultado não é conveniente nem esperado. Uma busca persistente, combinada ao trabalho livre do imaginário produziu um verdadeiro olhar sobre o olhar.

Pierre Devin

Taulignan, maio 2017