48 páginas, formato 21,5 x 17cm, 29 fotografias, impressão com pigmento mineral sobre papel Hahnemühle Photo Matt Fibre 200g/m2


Celso Brandão (Maceió, AL, Brasil, 1951) graduou-se em Comunicação Visual pela Universidade Federal de Pernambuco (1976) e fez especialização em fotografia como instrumento de pesquisa nas Ciências Sociais na Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro. Foi professor de fotografia, por 30 anos, no Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Alagoas. Publicou os livros de fotografia Sic Transit (Sensible édition, 2016), Caixa Preta (Editora Madalena, 2016), Taramps (SESC, 2016). Vem dirigindo uma série de filmes e vídeos documentários desde a década de 1970.


Em Stormy Weather, Billie Holiday canta: «A vida está aí e a miséria humana em todo canto». Há tantas fotografias fabricadas, em correlação com a experiência de vida, que, quando alguém como Celso faz da imagem fotográfica um traço vivo, isso se torna uma divina surpresa. Ela nos faz compreender que a fotografia pode ser uma filosofia do instante. A vida é então compreendida num piscar de olhos e restituída em formas pré-verbais.

Celso trabalha de maneira lenta e discreta. Os rituais são para ele a ocasião de refletir sobre a espécie humana, a vida, a morte, o marulho das ondas, os silêncios infinitos.

Sic transit é uma ópera, um road movie nos meandros da viagem do mistério humano e de seus traços, signos de antes da emergência do ego narcísico, cujo pequeno segredo de família é o pivô. Procedimento exigente que se interroga sobre o sentido do sagrado, sobre o que liga o homem ao espaço e ao tempo, ao cosmo, aos outros homens. No momento mesmo em que a mercantilização global tende e tenta reduzir o ser humano a uma célula individual retirada de seu tecido, unidade de produção e, mais ainda, unidade de consumo. Neurose de uma pretensa liberdade. Liberdade da neurose como impulso do consumismo. Um sistema que tem necessidade de uma fábrica de imagens para alimentar o imaginário e captá-lo com fins mercantis.

Celso se interroga sobre outras imagens. No primeiro ato, trata essencialmente da iconografia popular, o segundo está centrado na imagem em movimento, tal como o homem do século XX a descobriu através do cinema, mas também o traveling ordinário da visão a partir do interior do automóvel. O terceiro ato é um retorno radical às gravuras rupestres, os signos humanos mais antigos, mais simples, mais duráveis, onde o baixo-relevo só faz sentido com a luz que o anima. Dactilografam escrita da luz. Protótipo da fotografia, sentido do sagrado, inclusive. Na verdade, desde as origens desta técnica, na invenção das palavras para descrevê-las, a poética leva em conta esta dimensão: heliografia ou escrita do sol, imagem latente, revelação…

Sic transit é o reflexo de tudo isso e Celso nos dá tanto a ver quanto a pensar.

Pierre Devin

Belo Horizonte, agosto 2001